Pedro Pontes: corpo onde a arte e academia se completa

Por Joanderson Almeida e Maria Clara Lima

      Biólogo, com mestrado em bioquímica pela federal de Pernambuco (UFPE) e professor na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) desde 1994, é apenas um lado da história de vida do acadêmico Pedro Pontes. O outro lado, caracterizado por sua veia artística, pode ser admirada através de obras de artes espalhadas pelo Centro de Ciências Exatas da Natureza da UFPB (CCEN).

O início de tudo

        No ano em que começou a trabalhar na instituição, Pedro participou de um curso de Artes, no Centro de Artes Visuais Tambiá, onde hoje funciona a Casa do Artesão da Paraíba, em João Pessoa. A partir daí a arte virou um hobby, e durante sua formação conheceu artistas que ensinavam conhecimentos e técnica. “Lá tinha um grupo de artistas visuais que davam o curso, entre eles Marlene Almeida. Desde o começo ela nos instigou a fazer algo contemporâneo, deixando de fora o acadêmico”, contou Pedro.

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        Após a finalização do curso, no mesmo ano, três obras de Pedro Pontes foram expostas em um salão de artes, em João Pessoa. A primeira foi trabalhada com têmpera e grafite em pó: “todos da época eu fazia com têmpera, e esse especificamente usei duas cores: azul e vermelho. O que se vê na tela é fruto da mistura dessas cores”, afirma Pedro. O professor informou também que foi através desse trabalho que entrou no expressionismo abstrato, revelando mais seu inconsciente emocional do que racional.

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        A segunda obra, intitulada “Dor de Cabeça”, foi feita com gesso em pó e purpurina dourada. Sobre o processo de montagem, ele informa que utilizou duas chapas de uma tomografia da sua cabeça. “Desde criança eu tenho dor de cabeça crônica, mas meus exames sempre davam normais. Tem algo de turbulento no tecido rasgado e chamuscado usado na obra, com a imagem da cabeça dentro”.

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        Por último, a obra “Aterramento” foi montada com gesso, serragem, bloco de cimento e fio de aterramento elétrico. Segundo Pedro, a cabeça conectada à terra é uma tentativa de ligar a cabeça ao corpo. Esta obra marca o auge dos seus trabalhos com materiais. “Coloquei-as no auditório porque foi um lugar que encontrei para expor, não queria deixar elas numa sala fechada sem que ninguém pudesse vê-las”, conta Pedro.

O período do mestrado inspirou-o para a arte

        Durante seu mestrado, o professor realizou leituras do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, que influenciou em sua pesquisa. “Seus livros sobre a complexidade me ajudaram bastante na fundamentação que necessitava”, revelou Pedro.

Tal inspiração não afetou apenas a vertente acadêmica, utilizando também tais fundamentos teóricos nos seus trabalhos artísticos. Em 1996, trabalhou em obras que estão expostas no DDN da UFPB. Entre elas estão as três abaixo:

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        A primeira obra, intitulada “Memórias de um mestrado: início” representa o começo do bioquímico na área da microbiologia. Nela está colado o primeiro microscópio que Pedro ganhara de sua mãe quando criança.

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        A segunda, “Memórias de um mestrado: catarse” foi composta por negativos de microscopia eletrônica, que não deram certo nesse período acadêmico. Além disso, foi usado também cera de carnaúba com pigmento verde.

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        Por último, na obra “Memórias de um mestrado: êxito”, Pedro cortou ao meio o jaleco que usara na época e utilizou como elemento em sua tela. “O mestrado foi um período conturbado para mim, em que tive que morar com meus pais, além de perder muito tempo em um projeto que não vingou. Tudo isso fez com que fosse um tempo turbulento para mim, e está representado nessa obra”, explica Pedro.

O doutorado foi o divisor de águas

        Depois de anos trabalhando com arte, o professor de bioquímica começou a trabalhar no seu doutorado, fato que mudaria sua carreira artística. Ainda no começo do doutorado, ele realizou exposições que seguiam a linha de expressionismo abstrato. Porém, no decorrer de seus estudos, Pedro sentiu-se obrigado a dar uma pausa nas obras por conta do tempo que já não suficiente.

        Realizou seu doutorado em pesquisa educacional na USP (Universidade de São Paulo), e dentro de seu trabalho se relacionou com a epistemologia das ciências. Pedro conta que sua motivação para mudar de rumo foi a grande deficiência, notada pelo docente, em relação ao entendimento dos conceitos científicos por parte dos estudantes da universidade, motivada, segundo ele, pela falta de conhecimento da filosofia da ciência.

        Em 2004, após o término do doutorado, Pedro voltou a morar em João Pessoa. Perto de sua casa havia uma loja de móveis usados, e lá ele encontrara três telas enormes. “Eu gostei muito das molduras que estavam naquelas telas, então comprei para reutilizá-las”. A partir disso surge seu primeiro quadro da série: Complexus: o fio e a trama após anos, intitulado “Tramas Populares I”.

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        Sobre a utilização da moldura, o artista fala que esta não serve de ornamentação na sua obra, mas sim o suporte da tela. Essa obra também marca o início da relação do artista com os fios, mais especificamente o sisal.

        Os últimos trabalhos da série, Tramas Populares II e Tramas Populares III, mostram novamente molduras que eram embaladas por fibras do sisal, a qual o artista se remete como “tanto a tinta quanto a tela”.

        Para Pedro, as obras são as variações de um mesmo tema. Todas seguem linhas formadas pelos fios, mas em um determinado ponto se diferem, pois acrescentam a elas novos objetos.

        Em 2014, Pedro doou para Antônio Nóbrega, diretor do Instituto Brincante, localizado em São Paulo, seu trabalho “Tramas Armoriais”, que depois serviu de inspiração para a criação de outra obra, “Brincante”. O professor afirma que pretende continuar fazendo trabalhos explorando o universo de brinquedos infantis e da cultura popular.

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        Outra obra que para o artista existe um sentimento especial é a “Caritas”, em que no lugar de uma tela, ele utiliza um espelho coberto por fibras do sisal. Pedro conta que o espelho tem muitos significados para o observador, um deles é a “busca de si mesmo”, pois “ao se olhar no espelho muitas vezes fazemos questionamentos sobre o autoconhecimento, e as fibras do sisal são os fios da vida, como diz na mitologia grega com as Moiras ou Parcas”.

A importância da arte na vida de Pedro

        Como relatado acima, Pedro pausou sua carreira artística por motivos pessoais. Mas em 2014, querendo retomar suas atividades artísticas, conversou com a coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Documentação Popular (NUPPO), Beliza Áurea. Ela então sugeriu uma inscrição para liderar um projeto de extensão pelo PROBEX com a temática “Etnobiologia, etnoecologia, interdisciplinaridade e artesanato”.

        A partir desse momento, surgiu realmente o interesse de voltar a produzir obras e realizar exposições. A mais recente foi com Isis Galvão, artista reconhecida pelos seus trabalhos com fibras naturais. Em parceria fizeram a exposição “Fibras e Tramas” no NUPPO, que ficou até 30 de novembro de 2016.

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Exposição “Fios e Tramas”

        Pedro finaliza dizendo que a arte é essencial na sua vida, mesmo havendo dificuldades para divulgá-la, porém nunca desistiu dela. O professor enxerga na arte a oportunidade de expressar sua criatividade, já que na área acadêmica, principalmente científica, não estava conseguindo. “Minha vontade era de fazer algo, olhar para esse algo e ter a satisfação de dizer: ‘Eu fiz!’. E eu não estava conseguindo realizar isso como pesquisador em ciência”.

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